bell hooks: Numa sociedade racista, a recuperação está no acto e arte de amar

Que referências nos acompanham na nossa construção de negritude e africanidade? Quais os livros, filmes, séries, discografia ou palestras que nos ajudaram a desmontar a armadilha da história única? Publicamos, neste espaço, sugestões que espelham esse despertar identitário. Como o ensaio “Living to Love” (Vivendo para amar), de bell hooks, reflexão fundamental sobre as barreiras emocionais – e não apenas materiais – que a escravatura e o colonialismo criaram às famílias negras.

por Afrolink

Tivemos de libertar as nossas vidas das correntes. Tivemos de libertar as nossas terras das invasões. Tivemos e ainda temos de lutar pelo nosso reconhecimento como cidadãos de pleno direito, com acesso equitativo a direitos elementares, como saúde, habitação, trabalho e educação. Tivemos e ainda temos de explicar por que razão é necessário olhar para o passado para perceber que a estrutura de poder vigente perpetua a criminalização, inferiorização e exclusão dos negros. Fizemo-lo e continuamos a fazê-lo com a urgência que se impõe nas questões de vida e de morte. Fizemo-lo e continuamos a fazê-lo por uma questão de sobrevivência.

Nesse caminho de tantas disputas, em que antes como agora subsiste a necessidade de demonstrar que as vidas negras importam, além das perdas materiais é fundamental analisar as perdas emocionais, avisa bell hooks.

No ensaio “Living to Love” (Vivendo para amar), a autora e activista afro-americana assinala que “precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e impedem a nossa capacidade de amar”.

“Numa sociedade onde prevalece a supremacia branca, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade. Esses sistemas de dominação são mais eficazes quando alteram a nossa habilidade de querer e amar”, reflecte hooks, acrescentando: “A vontade de amar tem representado um acto de resistência para os afro-americanos. Mas ao fazer essa escolha, muitos de nós descobrimos a nossa incapacidade de dar e receber amor”.

A pesada herança emocional da Escravatura

Essa é umas pesadas heranças da Escravatura, assinala a escritora, para quem a marcas emocionais do passado continuarão a travar a nossa plena existência, mesmo que alcancemos os nossos objectivos materiais.

“Testemunhos de pessoas escravizadas revelam que a sua sobrevivência era muitas vezes determinada pela capacidade de reprimir as emoções. (…) o facto de terem testemunhado o abuso diário dos companheiros – o trabalho pesado, as punições cruéis, a fome – fez com que se mostrassem solidários entre si somente em situações de extrema necessidade”.

Daí resultam dois equívocos fundamentais: por um lado, esconder as emoções tornou-se sinónimo de força e, por outro, suprir as necessidades materiais tornou-se sinónimo de amor.

“Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram de manter certas barreiras emocionais. E, de uma maneira geral, muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de conter emoções era uma característica positiva. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte”, observa hooks.

Prosseguindo com a explanação, a activista  nota como o amor ocupa um lugar acessório – equivalente a um artigo de luxo – na existência negra.  “Os nossos pais e a sua geração, que só pensavam em subir na vida, geralmente passavam a ideia de que o amor é uma perda de tempo, um sentimento ou um acto que os impedia de lidar com coisas mais importantes”.

O amor cura

Mais do que reconhecer que “somos um povo ferido”, hooks defende que uma vida plena nos obriga a que assumamos a necessidade de conhecer o amor.

“Numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor. E é importante para nós que estamos a passar por um processo de descolonização, perceber como outras pessoas negras reagem ao sentir o nosso carinho e amor”.

Debruçando-se em concreto sobre a realidade das mulheres negras, a autora lembra que “foram socializadas para cuidar dos outros e ignorar as suas necessidades”, levando a que muitas sintam que existe pouco ou nenhum amor nas suas vidas.

“Muitas mulheres negras não têm coragem de pedir ajuda, pois isso significaria um sinal de fraqueza. Precisamos de nos libertar desse condicionamento. Ter capacidade de pedir ajuda significa que temos poder. Cada vez que buscamos ajuda o nosso poder aumenta, em vez de diminuir. Experimentem”, apela hooks, para quem “a nossa recuperação está no acto e na arte de amar”.

“Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor nas nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível ver o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura”.

 

Leia o ensaio de bell hooks na íntegra aqui