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Todos os naipes contam

A revolução do descanso

Se a liberdade fosse um gesto, uma acção, ou uma situação, qual seria? E como se poderia expressar no movimento de uma mulher negra? A exposição “Resting Our Eyes”, em tradução literal “Descansando os Nossos Olhos”, patente até 25 de Junho no Instituto de Arte Contemporânea de São Francisco, nos EUA, oferece possibilidades de resposta, a partir do trabalho de duas dezenas de artistas negros. Para Adana Tillman, por exemplo, cujo trabalho criativo se desenvolve a partir de têxteis, descansar é um verbo de conjugação vital. “Imagino o futuro num ritmo menos acelerado, com o descanso como revolução, com mais dias de reflexão”, adiantou à The Cut. À mesma publicação, Tillman reforçou a sua visão: “A ideia de que o mundo se deve reger por 24 horas vai tornar-se um mito, e os nossos dias deixarão de se medir pela quantidade de tarefas concluídas”. Que liberdade resultará de novas formas de gerir o tempo? Os questionamentos presentes em “Resting Our Eyes” inspiraram-se num manifesto de 1977, lançado pelo Combahee River Collective, grupo feminista criado por mulheres negras e lésbicas. O documento é evocado pela curadoria da exposição, que destaca uma frase como mote para a proposta artística. “Se as mulheres negras fossem livres, todas as pessoas seriam livres, porque a nossa liberdade implicaria a destruição de todos os sistemas de opressão”. Seguimos revolucionando…e descansando!

O Templo das Mulheres

Em Angola, terra de nascimento à qual regressou em 2010, após três décadas de vida em Portugal, João Monteiro percorreu os caminhos de fé que conduzem à Igreja Nossa Senhora da Conceição da Muxima. Neste templo católico, mariano, situado a cerca de 130 quilómetros de Luanda – e que atrai peregrinações tão massivas como as de Lourdes (França) e Fátima (Portugal) –, João captou a rotina espiritual das devotas. O resultado está registado nas imagens que aqui apresentamos, a que juntamos o testemunho escrito do que encontrou: “Um altar de fé e devoção a Maria, mãe de Deus. Um local de culto, onde o silêncio é interrompido pela onda de murmúrios das mulheres, que diariamente o visitam”. Uma “casa comum”, na qual  ecoam “sons de súplica, carregados de esperança, à espera que a “Mãe de todas as mães” os oiça e atenda todas as preces”.

Raízes de celebração

Incompreendido, discriminado e reprimido, durante séculos de violência escravocrata e colonialista, o cabelo afro solta-se, cada vez mais, do passado opressor para celebrar as suas raízes. Atenta a este movimento de libertação, que acompanha a partir de Londres, onde reside há nove anos, Alice Marcelino documentou-o na série “Kindumba”. O trabalho, realizado entre 2015 e 2017, é apresentado pela fotógrafa como um “projecto sobre a diversidade e riqueza cultural” das raízes capilares negras. Ao mesmo tempo, “Kindumba” – termo da língua angolana kimbundu traduzível para “Meu Cabelo” -, reflecte sobre as construções colectivas que “perpetuam ideais de beleza estereotipados”. Desafiando-as!

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