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Todos os naipes contam

Países espelhados, reflexos de resistência negra

O que as esteiras de palha trançadas na província de Cabo Delgado, em Moçambique, têm em comum com aquelas que nos chegam do estado da Bahia, no Brasil? As semelhanças estão à vista na exposição “Países Espelhados: objetos, imagens, sabores, memórias: encontros culturais entre o Brasil e nações africanas de língua portuguesa”. Patente até ao final de Fevereiro na cidade brasileira de São Paulo, a mostra propõe uma reflexão sobre as similitudes “e trocas culturais entre o Brasil e os cinco países africanos que também foram colonizados por portugueses: Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe”. Com curadoria do designer Renato Imbroisi, a exposição reúne imagens, objectos de arte e artesanato, produção têxtil, esculturas e criações literárias dos seis países. “No caso específico dos territórios invadidos pelos portugueses, a modo de assegurar a manutenção do poder sobre as pessoas escravizadas, foram empregadas estratégias que visavam o apagamento de identidades colectivas, tais como a interdição de idiomas e a proibição de práticas religiosas”, assinala Danilo Santos de Miranda, director do Sesc São Paulo, entidade que acolhe a mostra. O responsável acrescenta, na mensagem de apresentação da exposição, que, apesar dessas políticas de aniquilação, “na trama de um tecido, no preparo de um alimento, numa canção de ninar, é possível observar similaridades que mostram nada menos que sobrevivências civilizatórias, formas de resistência que lograram atravessar o Atlântico e manter coesa certa memória colectiva num mundo despedaçado”. Em resgate!

O Templo das Mulheres

Em Angola, terra de nascimento à qual regressou em 2010, após três décadas de vida em Portugal, João Monteiro percorreu os caminhos de fé que conduzem à Igreja Nossa Senhora da Conceição da Muxima. Neste templo católico, mariano, situado a cerca de 130 quilómetros de Luanda – e que atrai peregrinações tão massivas como as de Lourdes (França) e Fátima (Portugal) –, João captou a rotina espiritual das devotas. O resultado está registado nas imagens que aqui apresentamos, a que juntamos o testemunho escrito do que encontrou: “Um altar de fé e devoção a Maria, mãe de Deus. Um local de culto, onde o silêncio é interrompido pela onda de murmúrios das mulheres, que diariamente o visitam”. Uma “casa comum”, na qual  ecoam “sons de súplica, carregados de esperança, à espera que a “Mãe de todas as mães” os oiça e atenda todas as preces”.

Raízes de celebração

Incompreendido, discriminado e reprimido, durante séculos de violência escravocrata e colonialista, o cabelo afro solta-se, cada vez mais, do passado opressor para celebrar as suas raízes. Atenta a este movimento de libertação, que acompanha a partir de Londres, onde reside há nove anos, Alice Marcelino documentou-o na série “Kindumba”. O trabalho, realizado entre 2015 e 2017, é apresentado pela fotógrafa como um “projecto sobre a diversidade e riqueza cultural” das raízes capilares negras. Ao mesmo tempo, “Kindumba” – termo da língua angolana kimbundu traduzível para “Meu Cabelo” -, reflecte sobre as construções colectivas que “perpetuam ideais de beleza estereotipados”. Desafiando-as!

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