O corpo como arquivo na arte multidisciplinar e decolonial de Sofia Yala

Licenciada em Estudos Africanos e mestre em Antropologia Visual, Sofia Yala Rodrigues, de 27 anos, expande a assinatura artística em Inglaterra, onde estuda Cinema e Fotografia, e encontra espaço criativo para produzir as suas obras, nos últimos tempos construídas a partir do conceito de identidade. A abordagem, que cruza imagens de álbuns de família com recursos digitais, está em exposição no “Circulation(s)”, festival de fotografia europeia emergente que, pela 11.ª edição, acontece em Paris. Até 2 de Maio.

Texto por Paula Cardoso

Foto de capa de Ayebainemi Abieyuwa Ese

Presa numa interrogação que se tornou tão conflitual quanto existencial e incontornável – “Mas eu sou portuguesa ou sou angolana?” –, Sofia Yala Rodrigues libertou-se de fronteiras identitárias.

“Isso é algo que já não existe em mim. Nós somos sem dúvida seres híbridos, e não há forma de desprender uma coisa ou outra, com base em processos históricos, políticos e coloniais”, nota a artista, hoje consciente das suas intersecções.

“Agora trabalho com identidade, numa abordagem que tem sempre que ver com desconstrução. Então, acaba por ser muito uma espécie de descolonização do imaginário que trago, de desaprender e entender o que é que sou”.

Estudos Africanos ou estudos coloniais?

Portuguesa com raízes em Angola, Sofia, de 27 anos, iniciou o seu processo de libertação a partir da licenciatura em Estudos Africanos, concluída na Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa.

“Posso dizer que os últimos semestres, e em particular o último ano do curso, me permitiram começar a desconstruir e entender uma série de aspectos. A determinada altura percebi: ‘Ok, há aqui coisas que estão erradas’”.

A tomada de consciência sobre as distorções do sistema educativo, e o seu impacto na identidade que construímos – “como nós ao longo da vida vamos criando inúmeros conceitos” – desencadeou uma série de reflexões.

“Saímos quase todos formatados do ensino básico e secundário, e há coisas que não questionamos. Por exemplo, como é que o curso de Estudos Africanos, que já tem mais de 20 anos, continua sem docentes negros?”.

Além de se deter nessa e noutras interrogações, e constatar que os seus Estudos Africanos se traduziram em estudos coloniais, a então estudante inaugurou um processo de investigação, exploração e afirmação artística.

Álbum de família aberto para a arte

“Comecei a brincar com os arquivos de família, a coleccionar e a tentar perceber mais a questão da minha história familiar”, conta Sofia, que, já depois dos Estudos Africanos, se deixou guiar pelo impulso criativo.

“Já tinha um interesse por Artes, só que também gosto de Ciências Sociais, e até queria fazer Jornalismo. Mas quando comecei o mestrado em Antropologia Visual, não tive mais dúvidas daquilo que quero”.

Convictamente artista multidisciplinar, a luso-angolana reinventa-se entre álbuns domésticos. 

“Antes simplesmente gostava de trabalhar com as imagens de família, mas agora tento recriar, ir para além do arquivo. Por exemplo, o meu trabalho mais recente é pegar em cartas do meu falecido avô e produzir uma espécie de paralelo com a minha fotografia”, assinala, enquanto procura palavras que traduzam essa experimentação artística.

“É algo um bocado difícil de explicar”, admite, entre vias de uma abordagem mais exploratória.

“Entendo que a melhor forma de conseguir falar de arquivo é colocar-me nessas criações, incluir-me nesse processo de identidade e diáspora”.

O impulso criativo, a partir das imagens, expandiu-se nos últimos dois anos, através de duas residências artísticas. “A fotografia era algo que já fazia, mas nunca tinha parado para ter uma formação mais especializada. Com a passagem pela Catchupa Factory, ganhei ferramentas para dar o passo seguinte”.

Recriar a própria identidade

Ao encontro da sua formação e evolução artística, Sofia vai aprimorando a assinatura criativa.

“Este trabalho que estou a fazer chama-se o corpo como arquivo. Gosto muito das colagens, de brincar com fragmentos, porque sinto que estou a recriar a minha identidade, num processo de identificação”.

O resultado, presente na produção “Playing with Visual fragments”, está em exposição no “Circulation(s)”, festival de fotografia europeia emergente que, pela 11.ª edição, acontece em Paris.

Nessa mostra, patente até 2 de Maio, o foco identitário sobressai, sempre ligado ao processo de libertação do que foi sendo aprisionado ao longo da vida.

“Quando trabalhamos com arquivo estamos a lidar com trauma, mesmo que os eventos não nos envolvam directamente. Por isso, o processo de busca tem de ser muito cuidadoso”.

A sensibilidade tornou-se desde logo perceptível a partir da construção das memórias familiares.

“Não posso fazer perguntas à minha tia ou ao meu pai assim do nada, porque sei que existe mágoa, toda uma história colonial, mesmo depois da Independência, que exige esse cuidado”.

As dores da descoberta

Por um lado curiosa, mas por outro lado consciente das marcas do passado, o resgate histórico acabou por se cumprir também com uma ponte geográfica.

“Tive mesmo de escavar conversas familiares, o que me levou a ir a Angola, a ser paciente, a sentar-me ao lado da tia, e dizer: ‘Então, e aquela carta? Afinal quando é que foram para Portugal? Eu tinha curiosidade, mas não conseguia entender a partir de onde é que podia perguntar. Agora já consigo compreender, relativamente à cronologia histórica, porque é que o meu avô, quando se ‘passava’, começava a chamar-nos fascistas e coisas do género”.

Apesar do potencial de fortalecimento identitário através da viagem pelas memórias ancestrais, Sofia chama a atenção para o preço que pode estar associado.

“É um pouco antagónico, porque às vezes quando estou a descrever uma fotografia identifico um processo de cura, mas também sinto muita dor. Em determinados momentos, tenho mesmo de pôr o arquivo de parte”, admite a artista, sublinhando que o impacto da herança histórica, carregada de violências coloniais, pode tornar-se insuportável para pessoas negras.

“Sem querer ser ofensiva, acredito que uma artista branca, por não ter esta relação que temos com a história, tem muito mais facilidade de falar sobre o assunto e dar continuidade a estes trabalhos”.

Apesar do reconhecido desafio adicional, a antropóloga visual continua de corpo inteiro na sua vocação artística, consolidada na Catchupa Factory, e também no projecto Upcyclespalop.

“Tenho muito esta ideia de que o nosso corpo é político, portanto é muito difícil – mesmo que amanhã decida deixar de trabalhar com arquivo – não ter uma influência política associada às minhas criações”. Hoje, o movimento de Sofia está em “Circulations (s)”, ao encontro de memórias ainda apagadas da História de Portugal. Resgatadas numa arte sem fronteiras.

 

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