Os crimes das “obrigações e normas que estão em vigor na PSP”

Onde o director nacional da PSP, Magina da Silva, apenas viu “um polícia a cumprir as suas obrigações e as normas que estão em vigor na PSP”, o Ministério Público encontrou motivos para um julgamento, tendo proferido um despacho de acusação contra o agente Carlos Canha, filmado a agredir Cláudia Simões. Segundo avançou o Público, sobre o polícia recaem fundadas suspeitas da prática dos crimes de ofensa à integridade física qualificada, sequestro agravado, abuso de poder e injúria agravada. O caso, em que estão acusados outros dois agentes, remonta a Janeiro de 2020, quando Cláudia foi violentamente espancada na sequência de uma altercação durante uma viagem de autocarro. Mais de um ano depois – período em que vítima foi ouvida como arguida e entretanto ilibada –, chegou a hora de se fazer Justiça? Reflectimos n’ O Lado Negro da Força.

por Afrolink

O vídeo do agente da PSP Carlos Canha a agredir Cláudia Simões, numa paragem de autocarros da Amadora, deveria merecer o repúdio de qualquer ser humano, e uma firme condenação da corporação. As imagens do rosto desfigurado de Cláudia Simões, que teve de receber tratamento hospitalar urgente depois de ser encaminhada para a esquadra do Casal de São Brás, deveriam acentuar esse repúdio e a agravar essa condenação. Mas, aos olhos do responsável máximo da PSP, Magina da Silva, o polícia limitou-se “a cumprir as suas obrigações e as normas que estão em vigor na PSP”.

As declarações do director nacional da PSP, de que não houve “qualquer infracção” no vídeo da detenção de Cláudia Simões, foram proferidas pouco depois da agressão, e são bastante reveladoras das abordagens policiais – e criminosas – utilizadas pelos agentes.

Aliás, o Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública, também não se coibiu de comentar o caso, desta feita a partir do comportamento de Cláudia Simões que, para se defender, mordeu o agente que a imobilizava. Num post publicado no Facebook, e pouco depois apagado, a organização insinuava que Cláudia Simões padecia de doença grave. “As melhoras ao colega e espero que as análises sejam todas negativas a doenças graves. Contudo a defesa da cidadã está a começar a ser orquestrada pelo ódiomor [sic] de brancos”, lia-se nesse post.

Enquanto essa estrutura sindical exibia imagens dos arranhões e outras marcas alegadamente resultantes do suposto comportamento violento de Cláudia Simões – que chegou a ser ouvida como arguida, tendo sido, entretanto, ilibada –, a mesma lidava com as dores – físicas e psicológicas – do encontro com o agente Carlos Canha.

“Face deformada por hematomas extensos”

“O relatório de urgência do Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), onde Cláudia Simões entrou a 19 de Janeiro às 22h18, sinalizou-a como “muito urgente”, vítima de agressão, com “face deformada por hematomas extensos””, informa o Público, que noticiou a intenção do Ministério Público (MP) levar os agentes Carlos Canha, João Carlos Cardoso Neto Gouveia e Fernando Luís Pereira Rodrigues a julgamento por causa das agressões a Cláudia Simões.

“Num despacho de acusação de 30 de Setembro, o MP acusa Carlos Canha dos crimes de ofensa à integridade física qualificada, sequestro agravado, abuso de poder e injúria agravada contra Cláudia Simões. Aos outros dois agentes que estavam no carro aquando das alegadas agressões de Carlos Canha, o MP acusa, cada um deles, de um crime de abuso de poder e de nada fazerem para impedir que Canha agredisse Cláudia Simões”, prossegue o Público, reproduzindo excertos desse despacho.

No documento “o MP descreve que “no trajecto de cerca de 3km entre a R. Elias Garcia e a esquadra do Casal de S. Brás”, para onde Cláudia Simões foi conduzida, o arguido Carlos Canha, “aproveitando-se do facto de a ofendida se encontrar algemada e na impossibilidade de resistir, logo que a viatura iniciou a marcha”, disse-lhe: “Agora é que te vou mostrar, sua p***, sua preta do c*****, seu c*****, sua macaca.” Fazia-o “enquanto lhe desferia vários socos na cara”. Ao mesmo tempo, “e enquanto se tentava proteger, baixando a cara para não ser atingida”, o agente Carlos Canha dizia-lhe: “estás a baixar a cara, c*****” e “ainda por cima esta p*** é rija”. Segundo o MP, à saída da viatura junto à esquadra, Carlos Canha desferiu também em Cláudia Simões “um pontapé que a atingiu na testa”.

Importa recordar que tudo começou por causa de um passe esquecido, para não esquecermos que a violência policial não precisa de pretexto.

A reflexão prossegue n’ O Lado Negro da Força.

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