Os crimes sem castigo na missão de Anizabela, a “nossa” Mãe Justiceira

Angola que a viu nascer também viu morrer, de forma violenta, uma das figuras centrais na sua história: o pai, assassinado à porta de casa. O crime precipitou a mudança familiar para Portugal, destino inicialmente fixado no distrito de Aveiro e, ainda no ensino primário, redireccionado para Lisboa. Até hoje estabelecida na capital, Anizabela Amaral formou-se em Direito e tornou-se uma das primeiras dirigentes da SOS Racismo. “A minha vida foi-me mostrando que eu precisava de me envolver”, diz a mãe do Daniel, do Pedro e do Miguel, hoje especialmente activa no combate ao discurso de ódio racial nas redes sociais. Por uma sociedade com mais amor.

por Paula Cardoso

A súplica entrou-lhe casa adentro de chofre. “Ó mãe, pinta lá a cara de branco, não gosto que sejas castanha, não gosto, não gosto, não gosto”.

Com apenas três anos, o filho mais velho de Anizabela Amaral carregava uma inquietação dilacerante na voz. “O miúdo dizia aquilo aflito, estava a sofrer. Lembro-me que naquele momento só pensava: ‘Oh, Manela, oh, João, porque é que não estão aqui para me ajudar?”.

Manuela Oliveira e João Antunes, ex-dirigentes da SOS Racismo a quem a prece se dirigia, morreram antes do desassossego familiar que apanhou a luso-angolana desprevenida, mas não sem lhe legarem um bê-á-bá de luta para a vida.

“Aprendi imenso com eles. Eram ambos do Porto, professores, brancos, e íamos juntos às escolas fazer debates”, recorda Anizabela, de volta à década de 90, período de arranque da hoje trintenária associação.

“O João e a Manela eram pessoas muito envolvidas, davam muito a cara pela causa anti-racista, e eu acompanhava-os para todo o lado. Na altura tínhamos muitos miúdos negros na assistência, a fazerem perguntas tão difíceis que aquilo me motivava, era um combustível, a energia que precisava para continuar”.

O fantasma da vergonha e rejeição da pele negra

Mas a experiência acumulada ao longo de anos de activismo na SOS Racismo revelou-se insuficiente a partir da maternidade, reconhece a jurista.

“Ao longo de vários anos, só me recordo de três ocasiões em que falámos com miúdos de três anos. De resto eram alunos da primária, do ciclo, secundário e universidade”.

Sem os mentores de tantos ensinamentos, porém segura da mãe que queria e não queria ser, Anizabela viu-se atormentada com um velho fantasma.

“Conhecia muito bem a história de uma amiga que, quando levava o filho de 13 anos à escola, deixava-o no início da rua porque os amigos não podiam ver que a mãe era negra. Sempre disse que isso não iria acontecer comigo”.

Fortalecimento identitário para uma educação anti-racista 

Mais de uma década depois do episódio com o primogénito, ultrapassado com muita pedagogia, a luso-angolana de 49 anos conta que renova forças em leituras, debates e partilhas de experiências com outras pessoas racializadas.

“A partir do momento em que fui mãe, e tive o assunto a chegar-me a casa, com o meu filho de três anos a pedir-me para pintar a cara de branco, tornou-se evidente que tinha de me fortalecer”.

A par do reforço positivo da própria identidade, Anizabela encontrou suporte no exemplo materno.

“Lembro-me de andar no ciclo preparatório e um pai vir bater à nossa porta porque parti a cabeça ao filho com uma pedra da calçada. Eu estava à rasca porque percebi o que se estava a passar, mas a minha mãe acreditava tanto em mim, na minha bondade, que só perguntou: ‘E o que é que o seu filho fez à minha filha para ela lhe partir a cabeça? Ouvi aquilo e pensei: Tenho de ser assim quando tiver filhos”.

Consciente de que nada acontece por acaso, a hoje mãe do Daniel, do Pedro e do Miguel sublinha que, da mesma forma que no passado algo a fez disparar com violência, também no pedido do seu primogénito teria de haver um gatilho.

“Percebi mais tarde que o meu filho apenas me queria proteger, porque observou, na escola, que as pessoas castanhas eram tratadas de forma diferente, para pior. Cheguei à conclusão que ele ouvia comentários depreciativos, e assistia a atitudes menos próprias relativamente às crianças que não eram brancas, embora estivesse numa IPSS que tinha mais de 20 nacionalidades”.

Dá banho com lixívia aos seus filhos?

Decidida a quebrar o ciclo de normalização de micro-agressões racistas no qual tantas vezes se viu e vê enredada, Anizabela decidiu reforçar a presença na escola dos filhos.

“Na altura em que tenho o mais velho a implorar-me para pintar a cara, já era mãe pela segunda vez. Há um dia em que estou com o mais pequenino ao colo, que é o mais louro de todos, e a empregada da creche pergunta: “Este ainda é mais branco do que o Miguel, dá-lhes banho com lixívia?”.

Apanhada de surpresa, Anizabela conta que quase ficou sem palavras. “Foi muito forte ouvir aquilo. Respondi apenas: Olhe que está enganada, eles não são tão branquinhos, ponha-os uma semana na praia e veja de que cor eles ficam. Não consegui dizer mais nada”.

Já recuperada do choque, a luso-angolana alertou a direcção da escola para a necessidade de trabalharem a temática étnico-racial, nomeadamente através da promoção do diálogo intercultural.

Apesar da resistência encontrada, Anizabela conseguiu, entre outras conquistas, que a festa de final de ano tivesse um foco multicultural, expresso, por exemplo, na partilha de iguarias de várias geografias.  

O confronto com a discriminação racial

Nesse episódio, como em tantos outros ao longo da sua história, a jurista é peremptória na observação: “A minha vida foi-me mostrando que eu precisava de me envolver”.

Cidadã activa desde as primeiras memórias, Anizabela revisita com as vivências dos três filhos o seu próprio crescimento.

“Fui sempre uma miúda muito refilona, uma criança muito chatinha, que nunca levava desaforo para casa”, conta, sublinhando que aquela agressão a um colega, na época do preparatório, foi tudo menos gratuita.

“Fiz o meu primeiro ano de escola numa aldeia e não senti racismo. Comecei a perceber as divisões em Lisboa. Tinha acabado de fazer oito anos, e passei a notar as preferências nas brincadeiras. Além disso, os miúdos divertiam-se a trocar os nomes das únicas alunas negras da escola para gozarem connosco. Diziam: “Não és fulana, mas és igual a ela”.

O confronto com a discriminação após a mudança de Sever do Vouga, no distrito de Aveiro, para a capital do país, acentuou-se com a passagem dos anos.

“Na minha família nunca fui tida como uma criança agressiva, mas fora de casa era muito ao pontapé que resolvia os meus problemas. Por isso estive prestes a ser expulsa da escola alguma vezes”.

ADN para a mudança

Salva pelas boas notas, e a determinada altura por se destacar no desporto, Anizabela recorda que a mudança de casa no 7.º ano, da Póvoa de Santa Íria para o Monte de Caparica também se revelou providencial.

“Na Escola Secundária fiz parte da Associação de Estudantes, entrei numa dinâmica de fazer mudanças, de criar coisas, de fazer acontecer”.

A veia transformadora, aliada a um forte sentido de Justiça, ditou a formação académica em Direito, da mesma forma que a consciência das discriminações raciais, conjugada com o compromisso de as combater, ditou a militância anti-racista.

“Acabei o curso em 1995 e já estava na SOS Racismo”, diz a activista e ex-dirigente da associação, particularmente activa na campanha que, em 1999, deu força de lei à discriminação racial. A jurista nota, contudo, que falta reconhecer o crime de racismo per si, para que deixe de passar impune.

“Temos uma contra-ordenação, temos um agravamento dos crimes no Código Penal quando a motivação é racial, mas não existe o tipo de crime racismo, algo que seja assim tão directo como alguns países já têm. É um caminho que está por fazer”.

Talvez os seus três filhos, que têm entre os 15 e os 8 anos, venham a esgrimir argumentos nesse sentido. “São miúdos muito informados, e por isso muito mini-activistas”, orgulha-se, fortalecendo o legado de luta familiar.

“O meu pai foi baleado em Angola, à porta de casa, quando estava a sair do carro. Sempre me disseram que morreu por engano, e até pode ter sido, mas não acredito que não estivesse envolvido politicamente”, refere a jurista, que reforçou essa convicção com a passagem pela faculdade.

Desafiada por uma colega a militar num partido, a então estudante de Direito esbarrou na reacção materna. “Nem pensar! Já perdi o teu pai, não te vou perder a ti”.

O crime forçou, em Junho de 1975, a mudança da família para Portugal, deixando para trás qualquer ilusão de Justiça. 

Apesar de o homicida ter sido identificado, acabou solto, entre ameaças de novas mortes. “A minha mãe teve capangas na nossa casa, a avisar: ‘Se não tiras a queixa, nem tu nem as tuas filhas voltam a ver a luz do dia”.

Anizabela, dois anos mais velha do que irmã, reconstitui a história a partir de conversas familiares e fragmentos de memórias ouvidas sobretudo durante a infância e adolescência.

“A minha suspeita é de que estaria ligado à UNITA, mas não me interessa propriamente saber em que lado da barricada ele se encontrava”.

Fosse qual fosse o alinhamento paterno, a história activa um forte sentimento de identificação. “Talvez seja por isso que dizem que saio ao meu pai”.

Na luta anti-racista ser moderado não é opção

Sempre pronta para defender igualdades, Anizabela reinventa-se no combate às discriminações desde a saída da SOS Racismo.

“Com tudo o que vivemos lá dentro, é impossível a SOS sair de dentro de nós”, defende, acrescentando que a experiência a retirou de um lugar de ingenuidade.

“Lembro-me que antes de entrar na associação achava que eram todos um bocadinho fundamentalistas. Por isso, disse para mim mesma: Vou ser uma pessoa consensual ali, tentar fazer pontes, criar alianças, chamar gente branca…”.

A estratégia anti-racista de Anizabela demorou apenas dois meses até embater num quotidiano de macro-agressões. “Todas as denúncias que nos chegavam eram de tal forma graves e doentias que sermos moderados naquele contexto não era opção”.

A importância das posições de força tornou-se mais evidente com o assassinato, em 1995, de Alcindo Monteiro, português negro espancado até à morte por um grupo de skinheads.

Vinte e cinco anos se cumpriram desde o bárbaro homicídio, outros assassinatos ocorreram pejados de indícios de motivação racial – incluindo a morte do actor Bruno Candé –, mas a negação do racismo permanece na sociedade portuguesa.

“Não podemos desarmar”, sublinha Anizabela, preocupada com a ofensiva populista da extrema-direita.

Justiça em rede

Firme na luta contra o ódio, a jurista, que trabalha na Comissão Nacional de Protecção de Dados, depois de se ter iniciado na função pública como escrivã de tribunal, reitera que foi sendo impelida a agir.

Primeiro numa estrutura associativista, que deixou entre desafios de maternidade, agora na educação dos filhos e nas denúncias de casos de discriminação que publica nas redes sociais, Anizabela lembra que só confrontando as estruturas que sustentam o racismo é possível perspectivar a sua desintegração.

“Muitas pessoas não se querem comprometer, têm muito medo até de pôr um like num post, e há uma razão muito séria para isso acontecer. No outro dia, por exemplo, fiz um comentário na página do Mamadou [Ba], e de repente tinha seis pedidos de mensagem privada, seis pessoas a pedirem-me satisfações sobre o que tinha dito, simplesmente porque concordei com o que o Mamadou estava a dizer”.

As manobras de intimidação estendem-se a múltiplas denúncias de conta no Facebook, nos últimos dias novamente suspensa em mais um despique de recorte étnico-racial.

Firme na resistência, Anizabela nota que não é fácil lidar com tanto ódio, “porque não conseguimos ter uma barreira de arame farpado”, não conseguimos “construir um muro entre o que damos e o que recebemos, as nossas lutas e as nossas conquistas”.

“Muitas vezes a coragem falha-nos a todos, e ainda bem, porque se não fosse assim não éramos humanos completos. Acho que o que me fazia caminhar e seguir em frente até ser mãe era talvez o pensar nos outros, principalmente naqueles que não têm coragem, que não têm a força”, assinala a activista, agora centrada nos desafios da maternidade.

A educação para a mudança

“Pelo facto de ter três filhos rapazes, tenho uma dupla perspectiva da diversidade, e uma missão de muita responsabilidade, que que tem que ver com a igualdade de género”, nota a mãe do Daniel, do Pedro e do Miguel.

“Desde que ouvi a primeira vez o meu filho mais velho a dizer: ‘Mãe não és tu que vais jogar à bola, é o pai, porque as mães não jogam à bola’, pensei ‘estou mesmo fadada, o meu destino é mesmo este de educar”.

Sempre atenta ao respeito pelas diferenças, Anizabela frisa que o compromisso com a mudança não é somente altruísta, mas também egoísta. “Eu sei que isto vai dar a algum lado. E à medida em que promovo os valores nos meus, estou também a ficar mais forte, mais feliz e mais segura”. Por si, por todos e para todos. Com amor.