Plantar vida humana, colher regeneração e celebrar, ou, numa palavra: Úlulu

Entre viagens a São Tomé e Príncipe, destino que marcou a sua rota durante cerca de três anos, a artista transdisciplinar Raquel Lima encontrou raízes que desconhecia, e, a partir delas, começou a ‘escavar’ memórias e rituais que cultivam outros saberes e fazeres, terreno fértil para plantar futuros alternativos. A performance “Úlulu” floresce dessa sementeira, e estreia-se hoje, 3, às 19h30, no TBA – Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, pretexto para o Afrolink conversar com a criadora. Em palco acompanhada da mãe, Maria Palmira Joaquim, e do músico Okan Kayma, Raquel desafia-nos a sentir. Sem “querer fechar uma interpretação daquilo que está em cena, queremos que o público se questione”.

De cima: Okan Kayma, Raquel Lima e Maria Palmira Joaquim, fotografados por Pedro Jafuno

Num vai-e-vem que se tornou rotina, entre a morada em Portugal e uma investigação académica em São Tomé e Príncipe, Raquel Lima aterrou numa palavra: Úlulu. “Significa placenta”, traduz a poeta e artista transdisciplinar, enquanto busca entendimentos que vão muito além de dicionários, e da expressão em língua em forro.

“As pessoas referem-se a úlulu como um ritual. Falaram-me dessa prática antiga, de enterrar, nos quintais de casa, a placenta e o cordão umbilical dos recém-nascidos, para que, mais tarde, por mais que cresçam e viajem, saibam sempre como voltar ao lugar de origem”.

Fascinada com essa ideia de “retorno simbólico”, a também investigadora relaciona-a com as suas próprias viagens.

“O meu pai é de São Tomé, mas fui educada pela minha mãe, que é angolana. Então, não cresci com a cultura são-tomense próxima. Toda essa parte fui conquistar, de certa forma, já adulta, depois dos 30 anos”.

Ainda a ligar os pontos da própria história, Raquel encontra no úlulu não apenas identificação individual, mas também conexão colectiva.  “Acho que toda a diáspora negra, em parte, passa por esse percurso, que é este lugar de Sankofa, de olhar para trás”.

Nesse “retorno”, a artista calibra perspectivas: “Passei a dizer plantação da placenta, em vez de enterro, porque tem essa ideia de germinar uma ligação inequívoca, e para sempre, com a pessoa que nasce”.

O movimento de leitura e releitura, fincado em São Tomé e Príncipe, permitiu deslindar novas ‘sementes’. “Ao longo da minha pesquisa, fui percebendo que há outros países com rituais semelhantes”, indica Raquel, explicando que no Brasil, por exemplo, há relatos de oferenda da placenta ao mar – em reverência a Iemanjá –, como forma de protecção contra infortúnios de afogamentos, e atracção de prosperidade e abundância. Já na Colômbia, para prevenir eventuais derivas criminosas, coloca-se o cordão umbilical dentro de uma pequena caixa, para que os ratos não o apanhem, “porque se algum o comer, a criança pode tornar-se ratera, ou seja, ladra”.

Unidos pelo momento da nascença, os diferentes rituais cruzam-se na performance “Úlulu”, que se estreia hoje, 3, às 19h30, no TBA – Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, e pode ser vista até sábado, 5.

“A certa altura, vamos ouvir uma senhora na Colômbia, num quilombo de São Basílio de Palenque [considerada a primeira cidade negra livre de toda a América]”, aponta a criadora do espectáculo, antecipando outras participações. “Também vamos escutar uma senhora de Olinda, que fica em Recife, no Brasil, e outra que está em São Tomé, a falar em forro”.

Interessada em contrastar as múltiplas versões desse ritual, Raquel faz do palco um espaço de expressão documental, desde o primeiro momento alargado aos espectadores.

Ritualizar a ida ao teatro

“Não queremos que seja um espectáculo em que as pessoas entram, assistem, aplaudem e vão embora. O público está connosco, acompanha os nossos rituais, tenta ganhar consciência dos seus próprios rituais individuais…do que é fazer um gesto ritualístico e colectivo. E, se tudo correr bem, depois continua esse exercício em casa”.

A proposta, antecipa a artista transdisciplinar, é de “tirar um bocadinho o teatro do lugar de consumo. Ou seja, se a ida ao teatro também for um ritual, como é que essa prática pode acontecer?”.

Desde logo, aponta a criadora de “Úlulu”, “há uma procura de gerar um certo desconforto no público”, a partir da noção de que existe alguma ansiedade à chegada para um espectáculo, de “começar a atribuir significados, a tentar perceber para onde é que as personagens vão”.

Sem nos darmos conta, cena após cena, dia após dia, desabituamo-nos de apenas estar e ficar em silêncio. Aliás, questiona Raquel, em que medida chegamos ao lugar que ocupamos numa plateia? Estamos inteiros e disponíveis para a experiência, ou cheios de ausências que tornam o corpo visível, mas não presente?

Entre questionamentos, a poeta continua a ensaiar respostas. Reconhece, por exemplo, que “o texto não pode ser tão importante”, porque “o silêncio tem de prevalecer, tal como o gesto, e o movimento”.

Além do desafio de despir “Úlulu” de ‘demasiados’ palavras – “tinha um texto muito maior, e tive de o lapidar” –, a artista propõe-se vestir a performance de um certo breu.

“O que se faz no escuro? Pretendo contrariar a ideia de iluminismo e da projecção de luz como um lugar de revelação, porque na penumbra também se revela muita coisa”.

É disso exemplo o mito de Nanã, pontua Raquel, que traz a referência do Candomblé. “Nanã foi buscar terra ao fundo da lagoa, lugar de escuridão, para Oxalá criar a Humanidade. Então, interessa-me trabalhar a obscuridade e o tempo para respirar, que também é o tempo de gestação, embora não necessariamente de gestar, mas de virmos desse silêncio, desse úlulu, dessa placenta no escuro”.

Aqui, de novo, encontramos uma ideia de retorno às origens, agora externalizada na relação com a audiência.

No ciclo de vida

Sem “querer fechar uma interpretação daquilo que está em cena, queremos que o público se questione sobre os seus gestos quotidianos, sobre os seus lugares de pertencimento, que compreenda que pertencemos acima de tudo, ao nosso corpo, e que reflicta sobre como é que esse corpo gera o nosso próprio lugar”.

Em palco acompanhada da mãe, Maria Palmira Joaquim, e do músico Okan Kayma, a criadora desafia-nos a sentir.

“Vamos estar sempre a pedir ao público para interagir, para que possa chegar plenamente. Por exemplo, através de rituais muito pequeninos, em que as pessoas não têm de sair do lugar, não têm de se sentir desconfortáveis nem expostas”.

Nesta espécie de viagem de regresso a nós próprios, geográfica e emocionalmente impulsionada, “Úlulu” convoca-nos também a olhar para o Planeta.

“Nós não somos o centro, estamos aqui de passagem, com os nossos retornos, as nossas migrações. Mas há um lugar de parar, observar e escutar a Natureza: o que é que diz uma cascata? O que diz uma rocha? O que dizem as fibras vegetais?”.

Entre diálogos, Raquel sublinha que a regeneração planetária não tem de se fazer necessariamente através do ser humano. “Ainda que nós desapareçamos do planeta, há materiais que ficam, nomeadamente as fibras vegetais, com as quais nós vamos trabalhar muito em palco. Porque esses materiais vão ter histórias para contar e, eventualmente, vão-se regenerar”.

Partindo da ideia de que “existem rituais que servem exactamente para nos conectar com o Planeta”, a investigadora destaca a importância do “cuidado com o gesto ritualístico quotidiano”, que inclui rotinas como lavar os dentes ou a automassagem.

“Como é que esses momentos não só são retorno ao corpo, mas muitos deles estão-nos a falar sobre uma ligação ancestral ao próprio Planeta?”.

O úlulu abre muitas possibilidades de resposta.

“Plantar uma placenta é extremamente potente, porque é uma parte de nós poderosíssima em termos de sistema imunitário e células estaminais”, nota Raquel, realçando o efeito expansor deste ritual. “Imaginemos, então, como a quantidade de úlulus plantados em São Tomé fertiliza o próprio solo. Imaginemos esse lugar do nosso corpo voltar à terra enquanto composto que se decompõe, para depois germinar e criar mais vida”. Ciclicamente.

 “O úlulu dá-me esta ideia de ritmo, de um mantra circular e do movimento repetitivo, mas que nunca se repete porque é sempre diferente. Então, é um pretexto para falar de outro tipo de ligações mais globais”.

Regeneração colectiva e celebração

Diante das ameaças que vivemos, em que a Paz e a Justiça surgem cada vez mais fragilizadas perante sucessivas crises – do clima às migrações, passando pela democracia –, podem os rituais de “retorno” às origens oferecer uma via de regeneração colectiva? Haverá futuro sem respeitar os ciclos e ritmos da natureza humana e ambiental?

“Eu tento não romantizar porque, realmente, quando olhamos à volta vemos muito colapso a acontecer, e é importante ter essa consciência. Mas eu também digo que há aqui um lugar de esperança”, nota Raquel, antes de declamar um pedaço do texto de “Úlulu”.  Escrito assim: “E ainda que o nosso mundo já tenha acabado ou esteja a acabar, as crianças dormem aconchegadas nas costas de anciãs, e respiram num ritual, o mais profundo ritual que não se repete. Cada inspiração é única, cada inspiração é diferente, cada dia é um dia”.

A mensagem, assumidamente positiva – porque também importa esperançar e celebrar – é indissociável da vida que a compõe.

“Há aqui um lugar muito familiar. O meu companheiro faz apoio à criação. A minha mãe está em cena, o meu bebé está em todo o lado. Então, não é um espectáculo separado da vida, se é que isso é sequer possível”.

Certa da “impossibilidade de dissociar” a sua existência da performance, Raquel considera que é justamente isso que a peça tem de decolonial.

“A Tobi [Ayé], a nossa consultora de cosmovisão indígena, explica isso melhor do que qualquer pessoa. Ela disse: ‘Raquel, receberes a tua mãe em palco é, em si mesmo, um ritual’. Eu acho que esse ritual tinha de acontecer, que é o ritual de a minha mãe entender-se como mãe, eu entender-me como filha, e falarmos sobre isso. De eu pedir-lhe essa bênção. Isso foi uma chave durante este processo criativo. Mudou tudo”.

Entre curas, traumas, colapso, plantação, colheita, regeneração e celebração, a criadora de “Úlulu” recorda-nos também que o processo de descolonização das mentes é longo.

“Não dá para adormecer. Aliás, eu acho que o colonialismo é esse estado de sono, esse lado de sonolência”. Pelo contrário, sublinha Raquel,“o movimento decolonial é estar constantemente desperto e constantemente a despertar”.

 “Úlulu” abana-nos nessa direcção, ao mesmo tempo que se propõe encaminhar-nos para um lugar da poesia: “De se dizer uma frase que pode ser interpretada de várias formas, mas que acima de tudo tem de ser sentida”. Em conexão connosco, em relação com as outras pessoas, e na ligação ao Planeta.

Maria Palmira Joaquim, fotografada por Pedro Jafuno

Direcção artística e criação
Raquel Lima

Interpretação
Maria Palmira Joaquim, Okan Kayma, Raquel Lima

Cenografia
Eneida Tavares

Desenho de luz
Lui L’Abbate

Figurinos
Neusa Trovoada

Sonoplastia e composição original
Okan Kayma

Vídeo / filmagens
Sara Morais

Movimento
Lucília Raimundo

Consultora de cosmovisão indígena
Tobi Ayé

Apoio à criação
Danilo Lopes

Vozes

Ana Maria Semedo, Elcínia Dias, Eliane Borges, Eneida Tavares, Ernestina Miranda, Marilene de Andrade, Tobi Ayé

Olhar externo

Dori Nigro

Produção

Joana Costa Santos

Administração

Agência 25

Coprodução

Teatro do Bairro Alto, Teatro Municipal do Porto / FITEI

Coprodução em residência

OSSO, Alkantara, O Espaço do Tempo

Apoio

República Portuguesa – Cultura / DGARTES – Direção-Geral das Artes, Câmara Municipal de Lisboa / Polo Cultural das Gaivotas, Culturgest, Rural Vivo, Santos & Monteiro


Paula Cardoso

Jornalista, Fundadora da rede Afrolink e Autora da série de livros infantis Força Africana.

https://paulacardoso.pt/
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